Como prevenir crises de ansiedade na pandemia

Sombra de homem sentado, corpo inteiro, pernas dobradas, no parapeito de ampla janela fechada dividida em três partes, olhando para fora. Ao fundo, grande cidade costeira, com prédio alto em destaque. Foto em degradê de vermelho e preto e branco.

O isolamento social na pandemia de coronavírus pode causar ansiedade. Sintomas como insônia e taquicardia podem surgir, ou ficar mais intensos. Saiba quais são eles e dicas de como enfrentá-los.

Já faz mais de 1 ano que o coronavírus chegou ao Brasil e, com ele, a obrigação de usar máscara, álcool em gel e manter distanciamento e isolamento social, que se alternam com fases mais restritivas de lockdown.

Com as pessoas trabalhando em home office e isoladas mais tempo em casa, vem a pergunta: como está a saúde mental? Tem havido alguma tendência nas queixas feitas nos consultórios de psicologia?

Pandemia de ansiedade

É fato que a Covid-19 tem afetado, sim, a saúde mental de muita gente. Um levantamento do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ), por exemplo, mostra que a busca por atendimento psicológico, em 1 ano, cresceu 300% no estado.

Em São Paulo, a busca por atendimento psicológico e psiquiátrico mais que dobrou nos serviços da prefeitura, e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) calcula que houve um aumento de 82% na demanda de novos transtornos mentais nos consultórios particulares, sem falar de 70% dos pacientes que já tinham recebido alta e tiveram recaídas.

Para psicólogos como Henrique Alves, de São Paulo, o coronavírus aumentou a preocupação em áreas como trabalho e carreira. “A queixa inicial dos meus pacientes é quase sempre sobre a vida profissional, seja porque estão sobrecarregados, seja porque não conseguem estabelecer limites para as cobranças, por causa do desemprego ou porque a situação está tão difícil que precisam ‘engolir’ um emprego insatisfatório”, conta.

Mesmo a prevenção à Covid-19 é uma fonte de queixas, como comenta o também psicólogo Mário Thiago Figueredo, de Natal: “Tenho visto muita preocupação ligada à biossegurança, uso de máscaras, se tem vacina ou não, além do medo da própria infecção pelo coronavírus”.

Ansiedade: sintomas e crises

Embora os sintomas de ansiedade variem de pessoa para pessoa, eles são “geralmente ligados a quadros de transtornos de ansiedade”, avalia Alves.

Homem oriental com agasalho azul e camiseta branca atrás de janela fechada, mão esquerda no vidro, olhando para fora.

Foto: Nijwam Swargiary | Unsplash.

Preocupação excessiva, sensação de estar apreensivo sem conseguir se controlar, taquicardia e/ou palpitações, inquietação, irritabilidade, fadiga, tensão muscular e até insônia ou dificuldade em dormir são alguns dos sintomas que a ansiedade generalizada pode causar – e tem explicação.

“Na pandemia, ficou mais difícil produzir os efeitos que a gente espera no mundo”, explica Henrique. “No dia a dia, já somos bombardeados por eventos estressores – trabalho exaustivo, briga em família, demanda de estudos, etc. – e agora ainda temos preocupações novas por conta da doença. Só que não temos mais os ‘pequenos prazeres’ que eram tão motivadores e nos mantinham ‘funcionando’, como sair, ver os amigos, fazer atividade física com a mesma frequência. É natural acentuar esse sofrimento”.

Ansiedade tem cura?

Falando em termos gerais, passar por uma fase mais ou menos ‘ansiosa’ na vida acontece com todos nós – e, para saber como amenizá-la, é importante entender que cada pessoa é única e que, por isso, é preciso investir no autoconhecimento. Há, porém, algumas dicas que podem ajudar a aliviar o estresse e prevenir ou diminuir as crises de ansiedade enquanto durar o isolamento social:

Homem negro, barba rala, camisa cinza-arroxeada sorrindo, parque ao fundo.

Foto: Elizeu Dias | Unsplash.

  • Crie uma rotina agradável e separe os momentos de trabalho e lazer. “Por estarem em casa, as pessoas se sentem mais confortáveis para trabalhar e acabam se excedendo, e isso não é adequado”, explica Mário;
  • Conecte-se com seus amigos e família, para falar mal da pandemia, do governo, do trabalho ou rir. Isso ajuda a evitar a solidão e o excesso de preocupação;
  • Faça atividades físicas, ou trabalhos manuais. Eles aliviam o estresse e ajudam na concentração: cozinhar, ler, pintar, desenhar, praticar música, cuidar de plantas e de animais. O que estiver à disposição;

  • Não exagere nas notícias sobre o coronavírus. Previna-se, faça quarentena, mas não fique ‘bitolado’. “As notícias são importantes, mas não precisam ser constantes. Às vezes, atualizar-se uma ou duas vezes na semana já é suficiente – e escolha fontes seguras de informação”, afirma Henrique;
  • Embora a internet seja uma aliada, crie também momentos para se desconectar e que tirem você das inúmeras telas do celular, computador, notebook, tablet, etc. Relaxe, respire um pouco, faça brincadeiras, jogos e tenha mais contato com a família e o ‘mundo físico’.

Por fim, preste atenção se a crise de ansiedade não está muito forte e se não é hora de buscar ajuda profissional.

“Quando o sofrimento está tão intenso que a pessoa não consegue mais lidar com ele sozinha e está provocando sintomas fisiológicos, impedindo de realizar tarefas da vida diária, implicando problemas de autocuidado, no trabalho, nas relações sociais, já até passou um pouquinho da hora de procurar ajuda psicológica especializada. Também acredito na prevenção. Quem puder manter uma terapia para evitar chegar a essa gravidade, diria que é o ideal”, finaliza Mário.

E você, tem enfrentado ansiedade por causa do isolamento social e da quarentena? Como está lidando com isso? Compartilha aqui com a gente.

Foto/Destaque: Ishan Gupta | Unsplash.

Entrevistados:

  • Henrique Fernando Rocha Alves, psicólogo clínico e analista do comportamento, pesquisador e coordenador do Núcleo de Pesquisa e Extensão sobre a Pena e a Execução Penal da USP (NPEPEP-USP). Cofundador do projeto PsicoHaus, canal de divulgação científica focado em psicologia;
  • Mário Thiago Flores Figueredo, psicólogo comportamental, especialista em neuropsicologia e acompanhante terapêutico de pessoas com transtorno do espectro autista (TEA).

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