Reflexões sobre a paternidade: Parte 2

A minha relação com meu pai é muito forte, muito carregada de amizade e de amor. Mas para falar de como meu pai é incrível, eu preciso contar como ele quebrou um ciclo de paternidade ‘tradicional’, sem afeto físico, para o cara emotivo e sensível que ele é conosco.

O meu pai sempre trouxe para a nossa educação seus valores, a ideia de legado, de ‘o que um homem pode passar para um filho’ quanto ao trabalho, ao estudo, aos valores em sociedade e enquanto sujeito.

Essa relação de valores ele traz muito forte do que ele aprendeu com o pai dele e que ele perpetuou para a minha criação, para as coisas que ele me ensinou. Apesar de ele falar com carinho do meu avô, a relação entre eles foi muito diferente da que ele tem com a gente.

Meu pai tinha muitos irmãos e saiu de casa muito cedo para ir trabalhar. Dos irmãos, três ainda estão vivos e eles não devem se ver há uns três anos. Quando se encontram é uma relação muito rasa, geralmente para resolver alguma pendência burocrática.

Eu não tive nenhuma relação, infelizmente, com o meu avô, porque ele veio a falecer quando eu tinha uns 18 anos e a gente nunca teve uma relação próxima.

Quando ele encontrou minha mãe e se casaram, ele encontrou por onde demonstrar afeto e carinho. A família da minha mãe é nordestina e o amor é muito forte. A minha mãe é muito afetuosa e a gente aprendeu desde pequeno a demonstrar carinho, principalmente entre os nossos.

Quando você não tem, você sente a necessidade de fazer por onde. 

Meu pai é um cara que prepara o nosso café da manhã. Desde sempre ele levantou antes pra fazer o café da minha mãe e, se ele não leva na cama, ele põe a mesa. Isso ele faz com muito gosto.

A gente transborda aquilo que a gente recebe

Quando a gente tem um exemplo que o homem pode se emocionar, pode demonstrar carinho, não precisa estar nesse estereótipo que é desenhado pela sociedade do homem extremamente forte, do cara que vai prover, daquele cara que vai lutar, do estereótipo muito desenhado do feminino e do masculino, tem um impacto muito positivo na família.

Eu não tenho reservas para demonstrar um carinho, para falar uma palavra de afeto ou para me emocionar. O sentimento não tem gênero e isso eu trago muito forte para mim.

Essa relação traz uma segurança, um conforto, é incrível, é uma base. Você ter essa base, uma rede de apoio sólida, construída na base da confiança, do amor, da sensibilidade, te ajuda em todos os âmbitos.

E então a gente consegue ressignificar todo esse trabalho árduo e todos os sacrifícios que foram feitos para dizer ‘olha, tá dando tudo certo, tudo que vocês fizeram lá atrás têm uma resposta muito boa”.


Bruno Miranda, 30 anos, Analista de Comunicação
Imagens: Jude Beck on Unsplash (capa) e arquivo pessoal 

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