Especial HIV: o que você precisa saber sobre direitos e cuidados

Em artigo sobre HIV e aids, a imagem mostra oitos jovens, homens e mulheres, abraçados e sentados em fileira sobre uma mureta, de costas para a câmera, observando o mar. Ao fundo, um teleférico com cabines.

Amar-se mais, cuidar-se mais e viver mais foi o tema que a Parada Gay de São Paulo escolheu para falar do HIV em 2021. Que tal se informar um pouco mais sobre esse assunto?

HIV/Aids: Ame + Cuide + Viva + foi o tema da 25ª edição da Parada do Orgulho LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), que aconteceu em 6 de junho, a partir das 14h. Respeitando o isolamento social, foi a segunda edição realizada on-line, com oito horas de transmissão de lives.

Os médicos Vinícius Borges e Rico Vasconcelos e a covereadora de São Paulo, Carolina Iara, que vive com HIV, estiveram presentes na Parada para enriquecer o conteúdo e tirar dúvidas. A proposta de todas as lives e shows foi disseminar informações para combater o estigma e a discriminação de que os portadores ainda são alvos. 

Combatendo o preconceito

A pandemia do novo coronavírus tem trazido mudanças difíceis nas nossas vidas: necessidade de usar álcool em gel, máscaras, isolamento social... mas também apontou para outras questões muito bem-vindas, como a necessidade de ter empatia com o outro, de prestar atenção às práticas de higiene e de saúde, de se informar sobre políticas públicas em fontes confiáveis.

Por isso, algo de muito positHIVo que podemos ‘importar’ para o tema do HIV é não apenas falar mais sobre ele, mas também usar o que aprendemos com a Covid-19 para buscar mais informações e combatermos o preconceito, o que é mais do que necessário.

Realizada em 2019 pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS), a pesquisa ‘Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com HIV/Aids no Brasil’ demonstrou, por exemplo, que mais de 46% dos portadores do HIV já tomaram conhecimento de fofocas ou comentários discriminatórios de pessoas não ligadas à família por conta de sua soropositividade; e 41% ouviram esses comentários no próprio núcleo familiar!

Entre outros impactos, essa realidade afeta negativamente o acesso aos sistemas de saúde, o tratamento e o autocuidado. Assista ao vídeo do UNAIDS sobre o estudo.

HIV/Aids e autocuidado para o portador

O autocuidado é, por sinal, uma questão importante para todos e especialmente para as pessoas vivendo com HIV (PVHIV), além de uma demanda urgente.

Publicada em 2006, a pesquisa ‘Autocuidado e o portador do HIV/Aids: sistematização da assistência de enfermagem’, realizada em Fortaleza, é um exemplo das dificuldades dos soropositivos em atender a demandas de hidratação, alimentação, sono adequado e até consulta oftalmológica.

Em relação especificamente ao HIV, essas mesmas pessoas manifestaram dificuldades de adaptação relacionadas a medo, baixa autoestima e mesmo enfrentamento ineficaz da nova condição de saúde.

Pensando nisso, trouxemos algumas dicas de autocuidado para quem vive com HIV e que devem ser compartilhadas também por aqueles que não têm o vírus. Afinal, com mais informação, reduzimos o preconceito.

1. Cuidar da pele

Infelizmente, o Brasil ainda tem uma tendência de diagnóstico insuficiente da infecção pelo HIV. Para se ter ideia, um estudo publicado em 2019 na revista Enfermería Global com participantes do Carnaval no Sambódromo do Rio de Janeiro detectou que pouco mais de 66% das pessoas já realizaram o teste alguma vez na vida.

No Brasil todo, dados do Ministério da Saúde de 2013 evidenciavam que apenas 33,5% da população entre 15 e 64 anos de idade já tinha feito o teste – e os homens em geral são os que menos se testam, especialmente os que têm relações com o sexo oposto: 26% contra 40% das mulheres; e, em uma pesquisa realizada em Salvador e publicada em 2016, contra 44,1% entre gays e outros homens que fazem sexo com homens.

Uma das consequências disso é que ficamos distantes da meta 90-90-90 do UNAIDS, uma estratégia para que o HIV deixe de ser uma pandemia e que, idealmente, devia ter sido batida em 2020: 90% das pessoas que vivem com HIV tendo conhecimento de seu status sorológico; 90% delas sob tratamento; e 90% das que estão sob tratamento, em supressão viral. Também há a tendência de que as pessoas descubram o HIV apenas quando a infecção está mais avançada.

Em artigo sobre autocuidado para portadores de HIV e aids, foto mostra homem branco com barba mergulhado em líquido branco espesso. Vê-se seu rosto e o braço esquerdo, que tem tatuagens.

Foto: Sarah Cervantes | Unsplash.

Uma questão importante relacionada a esse diagnóstico tardio é que, normalmente, ele vem com outro problema de saúde atrelado – e a pele é o órgão mais afetado, o que inclui vários tipos de infecção e até tumores.

Além disso, o portador já diagnosticado pode passar por alguns problemas de pele por conta da medicação, como uma maior tendência à pele ressecada, por exemplo. 

Então, pessoas: cuidem da pele. Hidratem, observem, e, a qualquer sinal de mudança, não custa verificar no dermatologista.

2. Seguir o tratamento

Com o tratamento hoje disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento do HIV é similar ao de outras doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, mas é importante segui-lo para que a saúde seja mantida.

Atualmente, o ‘coquetel’ resume-se, na maioria dos casos, a uma ou duas pílulas diárias e é indicado para todos os adultos HIV-positivos, independentemente da condição imune. É possível haver efeitos colaterais imediatos, mas eles tendem a ser passageiros e restritos às primeiras semanas.

A pessoa que vive com HIV deve informar ao médico qualquer evento adverso, mas nunca parar a medicação – e deve realizar seus exames periodicamente, conforme a indicação do profissional.

Além de um tratamento bem feito manter a saúde em dia, com a imunidade alta e equivalente à de uma pessoa não portadora, ele reduz a carga viral do HIV até níveis indetectáveis nos exames: é a supressão viral, que também evita a disseminação do vírus.

Isso porque a pessoa que toma a medicação direitinho e mantém a carga indetectável por, no mínimo, seis meses de tratamento, não transmite o HIV pela via sexual. É o conceito indetectável = intransmissível.

3. Praticar atividade física

Em artigo sobre autocuidado para portadores de HIV e aids, foto mostra homem negro correndo sobre uma pista e vestindo agasalho azul e calça azul. Ao fundo, há paisagem com mata.

Foto: Tikkho Maciel | Unsplash.

A indicação de fazer exercícios para o HIV-positivo é a mesma para qualquer pessoa.

Atividades físicas nos mantêm saudáveis e ajudam no controle do diabetes, colesterol alto e triglicérides, que são condições que, além do fator idade, podem acontecer pelo próprio uso continuado de alguns medicamentos contra o HIV, como aponta uma revisão publicada em 2013 na Revista da Associação Médica Brasileira.

Nas pessoas que vivem com HIV, além disso, a prática de atividade física evita ou atenua os efeitos da lipodistrofia, que é a alteração na distribuição normal de gordura no corpo (perda em algumas regiões, acúmulo em outras).

Hoje, esse efeito adverso é cada vez menos comum com as medicações modernas, mesmo porque os remédios mais relacionados ao problema foram progressivamente retirados do SUS – mas prevenir nunca é demais, não? Ah, e não se esqueça de consultar o médico antes de começar.

4. Cuidar da nutrição e alimentação

Atualmente, não há uma indicação diferente quanto à alimentação e hidratação para a pessoa que vive com HIV, mas isso não significa dar espaço à desidratação nem sair comendo qualquer porcaria. Quem tem HIV deve manter uma alimentação saudável, como qualquer outra pessoa.

5. Conhecer seus direitos

O Brasil dá uma série de direitos às pessoas que vivem com HIV (PVHIV). Conhecê-los é uma forma de autocuidado, porque garante proteção legal contra abusos e acesso mais fácil a políticas públicas.

Confira o quadro com alguns deles, disponibilizado em 2017 pelo Ministério da Saúde. Há outros, inclusive nas esferas estaduais e municipais.

A imagem trata-se de um quadro informativo que explica, em texto, os principais direitos do portador do HIV e aids, que representa uma forma de autocuidado. O conteúdo do quadro pode ser lido no site: http://www.aids.gov.br/pt-br/publico-geral/direitos-das-pvha

Fonte: Ministério da Saúde, 2017.

Agora que você já sabe alguns pontos principais, lembre-se: quem se ama mais se cuida mais.

Por que existe Parada Gay?

As Paradas do Orgulho LGBTQIA+ nasceram em 1970, nos Estados Unidos, para relembrar a rebelião de Stonewall, que havia acontecido 1 ano antes, em 28 de junho. Naquele dia, frequentadores do bar Stonewall Inn, em Nova York, iniciaram uma série de protestos violentos contra abusos cometidos pela polícia contra a comunidade LGBT. 

Ainda nos anos 1970, as Paradas começaram a se espalhar pelo mundo. A de São Paulo teve a primeira edição, não por acaso, em 28 de junho de 1997, com cerca de 2 mil pessoas e o tema “Somos muitos, estamos em várias profissões”.

Passados mais de 20 anos, esse tema ainda é importante, já que ainda há preconceito em diversos segmentos e profissões. Somente em 2021, por exemplo, foi que Carl Nassib, do Las Vegas Raiders, se tornou o primeiro jogador da National Football League (NFL), liga de futebol americano, a se assumir gay ainda na ativa.

João Marinho é jornalista, mestre e doutorando em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento pela PUC-SP, com pesquisa sobre discursos e prevenção ao HIV/Aids.

Foto/Destaque: Duy Pham | Unsplash.

Fontes:

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