Em artigo sobre HIV e aids, a imagem mostra oitos jovens, homens e mulheres, abraçados e sentados em fileira sobre uma mureta, de costas para a câmera, observando o mar. Ao fundo, um teleférico com cabines.

Especial HIV: o que você precisa saber sobre direitos e cuidados

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Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial  de Luta contra a Aids (World AIDS Day). Com a pandemia de Covid-19 ainda em curso, com a nova variante ômicron, o tema escolhido para 2021 é "Acabe com as desigualdades. Acabe com a aids. Acabe com as pandemias" – mas o que você sabe sobre esse assunto?

Acabe com as desigualdades. Acabe com a aids. Acabe com as pandemias é o tema  divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS) e pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) para o 1º de dezembro de 2021.

O tema chama a atenção para o papel que as desigualdades sociais têm no surgimento e crescimento de pandemias em todo o mundo, como a recente crise sanitária desencadeada pelo novo coronavírus (SARS-Cov-2).

O UNAIDS, em particular, alerta que o mundo corre o risco de não cumprir o objetivo, firmado anos atrás, de acabar com a aids – a última fase, sintomática, da infecção pelo HIV – até 2030: 

“O mundo agora está longe de cumprir o compromisso comum de erradicar a aids até 2030, não por causa da falta de conhecimento, capacidade ou meios para vencer a aids, mas devido às desigualdades estruturais que obstruem as soluções já comprovadas para a prevenção e tratamento do HIV.”

O UNAIDS também chama a atenção para o fato de que houve um compromisso mundial pela redução das desigualdades. Trata-se do ODS 10 (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da Agenda 2030:

“A Estratégia Global de Luta contra a Aids 2021-2026: Acabe com as Desigualdades, Acabe com a Aids e a Declaração Política sobre Aids adotada na Reunião de Alto Nível das Nações Unidas sobre a Aids em 2021 têm como objetivo o fim das desigualdades.

Enfrentar as desigualdades, além de ser fundamental para acabar com a aids, ajudará a promover os direitos humanos de populações-chave e pessoas que vivem com HIV, preparar melhor as sociedades para derrotar a Covid-19 e outras pandemias e apoiar a recuperação e estabilidade econômica.”

Combatendo o preconceito

Combater desigualdades significa atuar para superar as desigualdades econômicas, sociais, culturais e legais que existem entre as pessoas e que dificultam o acesso a bens, serviços e direitos – inclusive, os relacionados à saúde.

A pandemia do novo coronavírus trouxe mudanças difíceis nas nossas vidas: necessidade de usar álcool em gel, máscaras, isolamento social e uma série de variantes, como a recente ômicron, que podem adiar a volta à normalidade... mas também apontou para outras questões muito bem-vindas, como a necessidade de ter empatia com o outro, de prestar atenção às práticas de higiene e de saúde, de se informar sobre políticas públicas em fontes confiáveis.

Por isso, algo de muito positHIVo que podemos ‘importar’ para o tema do HIV neste 1º de dezembro é não apenas falar mais sobre ele, mas também usar o que aprendemos com a Covid-19 para buscar mais informações e combatermos o preconceito, o que é mais do que necessário. Afinal, mais de 37 milhões de pessoas vivem com o HIV em todo o mundo, segundo dados de 2020.

Realizada em 2019 pelo UNAIDS, a pesquisa ‘Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com HIV/Aids no Brasil’ demonstrou, por exemplo, que mais de 46% delas já tomaram conhecimento de fofocas ou comentários discriminatórios de pessoas não ligadas à família por conta de sua soropositividade; e 41% ouviram esses comentários no próprio núcleo familiar!

Entre outros impactos, essa realidade afeta negativamente o acesso aos sistemas de saúde, o tratamento e o autocuidado. Assista ao vídeo do UNAIDS sobre o estudo.

Autocuidado para quem vive com HIV

O autocuidado é, por sinal, uma questão importante para todos e também para as pessoas vivendo com HIV (PVHIV), além de uma demanda urgente.

Pensando nisso, trouxemos algumas dicas de autocuidado para quem vive com o vírus e que devem ser compartilhadas também por aqueles que não o têm. Afinal, com mais informação, reduzimos o preconceito.

1. Cuidar da pele

Infelizmente, o Brasil ainda tem uma tendência de diagnóstico insuficiente da infecção pelo HIV. Para se ter ideia, um estudo publicado em 2019 na revista Enfermería Global com participantes do Carnaval no Sambódromo do Rio de Janeiro detectou que pouco mais de 66% das pessoas já realizaram o teste alguma vez na vida.

No Brasil todo, dados do Ministério da Saúde de 2013 evidenciavam que apenas 33,5% da população entre 15 e 64 anos de idade já tinha feito o teste – e os homens em geral são os que menos se testam, especialmente os que têm relações com o sexo oposto: 26% contra 40% das mulheres; e, em uma pesquisa realizada em Salvador e publicada em 2016, contra 44,1% entre gays e outros homens que fazem sexo com homens.

Uma das consequências disso é que ficamos distantes da meta 90-90-90 do UNAIDS, uma estratégia para que o HIV deixe de ser uma pandemia e que, idealmente, devia ter sido batida em 2020: 90% das pessoas que vivem com HIV tendo conhecimento de seu status sorológico; 90% delas sob tratamento; e 90% das que estão sob tratamento, em supressão viral. Também há a tendência de que as pessoas descubram o HIV apenas quando a infecção está mais avançada.

Em artigo sobre autocuidado para portadores de HIV e aids, foto mostra homem branco com barba mergulhado em líquido branco espesso. Vê-se seu rosto e o braço esquerdo, que tem tatuagens.

Foto: Sarah Cervantes | Unsplash.

Uma questão importante relacionada a esse diagnóstico tardio é que, normalmente, ele vem com outro problema de saúde atrelado – e a pele é o órgão mais afetado, o que inclui vários tipos de infecção e até tumores.

Além disso, quem foi diagnosticado pode passar por alguns problemas de pele por conta da medicação, como uma maior tendência à pele ressecada, por exemplo.

Então, pessoas: cuidem da pele. Hidratem, observem, e, a qualquer sinal de mudança, não custa verificar no dermatologista.

2. Seguir o tratamento

Com o tratamento hoje disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento do HIV é similar ao de outras doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, mas é importante segui-lo para que a saúde seja mantida.

Atualmente, o ‘coquetel’ resume-se, na maioria dos casos, a uma ou duas pílulas diárias e é indicado para todos os adultos HIV-positivos, independentemente da condição imune. É possível haver efeitos colaterais imediatos, mas eles tendem a ser passageiros e restritos às primeiras semanas.

A pessoa que vive com HIV deve informar ao médico qualquer evento adverso, mas nunca parar a medicação – e deve realizar seus exames periodicamente, conforme a indicação do profissional.

Além de um tratamento bem feito manter a saúde em dia, com a imunidade alta e equivalente à de uma pessoa que não tem o vírus, ele reduz a carga viral do HIV até níveis indetectáveis nos exames: é a supressão viral, que também evita a transmissão.

Isso porque a pessoa que toma a medicação direitinho e mantém a carga indetectável por, no mínimo, seis meses de tratamento, não transmite o HIV pela via sexual. É o conceito indetectável = intransmissível.

3. Praticar atividade física

Em artigo sobre autocuidado para portadores de HIV e aids, foto mostra homem negro correndo sobre uma pista e vestindo agasalho azul e calça azul. Ao fundo, há paisagem com mata.

Foto: Tikkho Maciel | Unsplash.

A indicação de fazer exercícios para o HIV-positivo é a mesma para qualquer pessoa.

Atividades físicas nos mantêm saudáveis e ajudam no controle do diabetes, colesterol alto e triglicérides, que são condições que, além da idade, podem acontecer pelo uso continuado de alguns medicamentos contra o HIV, como apontou a Revista da Associação Médica Brasileira em 2013.


Um efeito da medicação que, muitos anos atrás, ocorria com certa frequência era a lipodistrofia, que é a alteração na distribuição normal de gordura no corpo (perda em algumas regiões, acúmulo em outras).

Com as medicações atuais, esse efeito adverso tem uma probabilidade extremamente baixa de acontecer, além de que os remédios que eram mais relacionados ao problema foram progressivamente retirados do SUS. Para as pessoas que vivem com HIV há mais tempo e que já passaram por ele, porém, a prática de atividade física é indicada para atenuá-lo.

4. Cuidar da nutrição e alimentação

Atualmente, não há uma indicação diferente quanto à alimentação e hidratação para a pessoa que vive com HIV, mas isso não significa dar espaço à desidratação nem sair comendo qualquer coisa. Quem tem HIV deve manter uma alimentação saudável, como qualquer outra pessoa.

5. Conhecer seus direitos

O Brasil dá uma série de direitos às pessoas vivendo com HIV (PVHIV). Conhecê-los é uma forma de autocuidado, porque garante proteção legal contra abusos e acesso mais fácil a políticas públicas.

Confira o quadro com alguns deles, disponibilizado em 2017 pelo Ministério da Saúde. Há outros, inclusive nas esferas estaduais e municipais.

A imagem trata-se de um quadro informativo que explica, em texto, os principais direitos do portador do HIV e aids, que representa uma forma de autocuidado. O conteúdo do quadro pode ser lido no site: http://www.aids.gov.br/pt-br/publico-geral/direitos-das-pvha

Fonte: Ministério da Saúde, 2017.

Agora que você já sabe alguns pontos principais, lembre-se: quem se ama mais se cuida mais – e praticar o autocuidado, conhecer e divulgar direitos de pessoas vivendo com HIV é uma forma de ajudar a combater as desigualdades e chegarmos mais perto de um mundo sem aids.

João Marinho é jornalista, mestre e doutorando em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento pela PUC-SP, com pesquisa sobre discursos e prevenção ao HIV/Aids.

Foto/Destaque: Duy Pham | Unsplash. As aspas do UNAIDS foram traduzidas por João Marinho a partir do texto original em espanhol.

Fontes:

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