Reflexões sobre a paternidade: Parte 1

Nasci no dia do aniversário do meu pai. Eu costumava infernizar minha irmã mais nova, falando que EU era o maior presente da vida dele. Apesar de mais nova, ela era mais forte e eu sempre apanhava. Mas na minha cabeça de criança, provocá-la sempre valia a pena.

E então meu pai morreu.

Ele lutava contra leucemia há muitos anos e um dia ele se foi. E eu nunca mais comemorei meus aniversários com ele. Toda vez que eu apago as velas (ou corto o bolo de baixo para cima) eu apenas desejo que ele saiba que eu o amo.

Mas eu nunca desejo que ele esteja comigo.

Veja bem: é muito fácil amar uma pessoa morta, ela não erra mais. Isso foi o que nunca me falaram enquanto ele ainda estava vivo.

Meu pai era uma pessoa difícil. Ele era bastante carinhoso por uns 15 minutos e então ficava sem paciência, porque não gostava de barulho. Minha risada o incomodava. Mas como você pode exigir silêncio para crianças?

Meu pai trabalhava em São Paulo enquanto o resto da família morava no interior. Ele simplesmente não suportava ficar perto de muita gente. Mesmo que ‘essa gente’ fossem os seus próprios filhos. O víamos uma, duas, talvez três vezes por mês. Quando ele chegava, tínhamos que nos comportar como se não existíssemos.

arquivo pessoal

Ninguém te fala o que fazer quando sua família é confusa. Eu não tinha referências de famílias saudáveis por perto e cresci não conhecendo meu pai. 

A vida aconteceu e depois de muitos anos meus pais se separaram, mudamos de cidade, meu pai continuou longe.  

Quando a saúde dele já estava mais debilitada, eu planejava me mudar e ir morar com ele. Num fim de semana, minha mãe e minha irmã foram visitá-lo. Como eu tinha um trabalho da faculdade para entregar, fiquei. Foi o último dia dele consciente. Minha mãe o encontrou confuso e o socorreu. Ele ficou feliz por ver minha irmã, mas a última coisa que ele queria fazer antes de ser entubado era me ligar. Enquanto isso, eu fiquei fazendo um trabalho que não era tão importante.

Após alguns anos de terapia eu já consigo olhar para o céu estrelado sem querer chorar (ele sempre tentou me ensinar as constelações, mas eu juro que não tem um caranguejo no céu), já consigo comer bala de goma (que ele trazia de presente sempre que vinha nos visitar) e já consigo comemorar nosso aniversário.

Eu já o amei, já o odiei e já o culpei. Mas a vida é muito mais complicada do que nos avisam. Os sentimentos são muito mais do que palavras e é completamente possível você amar alguém sem a conhecer direito ou a entender. Você só precisa aceitar essa pessoa.

Então, toda vez que eu apago as velas, eu desejo que ele saiba que eu o amo.

Karol Moura, 32 anos, Software Developer
Imagens: Jonathan Borba (Unsplash) e "foto do meu primeiro aniversário com meu pai" (arquivo pessoal)



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